O erário público de Santarém, no oeste do Pará, está sob a sombra de contratos vultosos que desafiam a lógica administrativa e clamam por uma intervenção imediata dos órgãos de fiscalização. Uma investigação minuciosa realizada pela equipe do Portal JK do Povão online revela um possível esquema de cifras milionárias envolvendo secretarias municipais e empresas cujos perfis levantam suspeitas graves sobre a lisura dos processos licitatórios.
O cenário, que coloca o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-PA) e o Ministério Público do Estado (MPPA) em alerta, expõe como empresas recém-abertas e com endereços coincidentes estão sendo contempladas com recursos que ultrapassam a casa dos R$ 28 milhões, muitas vezes para serviços que divergem de suas atividades principais.
O caso mais emblemático recai sobre a DAC Manutenção e Construção em Geral Ltda. Com sede em Ipixuna do Pará, a empresa possui uma existência efêmera de apenas um ano e nove meses, tendo sido aberta em julho de 2024.
Apesar da pouca quilometragem e de ter como atividade principal o varejo de materiais de construção, a firma conseguiu abocanhar contratos de engenharia para manutenção preventiva e corretiva nas pastas de Educação, Cultura e Esporte que, somados, superam os R$ 13 milhões.
A ascensão meteórica da empresa, representada por Vitoria Daniele Santos de Freitas e Adriano da Silva Andrade, ganha contornos ainda mais nebulosos quando se analisa a capilaridade de seus endereços e a conexão com outras entidades beneficiadas pela gestão municipal.
A teia de coincidências se expande ao observar que Vitoria Daniele também figura como representante da Livraria Cristo Rei Ltda. Em um dos contratos firmados com a Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel), o domicílio registrado de Vitoria coincide exatamente com a sede da livraria em Tailândia, no sudeste paraense.
Esta mesma livraria firmou um contrato impressionante de R$ 8,2 milhões com a Secretaria de Educação (Semed) para o fornecimento de material didático. Os valores unitários praticados nessa transação são de causar espanto: enquanto cada livro didático foi faturado por R$ 399,00, os kits pedagógicos atingiram a cifra astronômica de R$ 16.520,00 por unidade, sob a modalidade de inexigibilidade de licitação.
A inconsistência documental é outro ponto que fragiliza a transparência do processo. Em documentos assinados com apenas três dias de diferença em março de 2026, a representante legal apresenta endereços distintos, ora em Tailândia, ora em Uruará, demonstrando uma confusão de domicílios que parece ignorar o rigor esperado em contratos públicos desta magnitude.
Enquanto isso, a DAC Manutenção segue acumulando funções diversas: desde a manutenção de escolas através do contrato 080/2025 até a complexa restauração de patrimônio histórico e artístico da cidade, serviço este orçado em quase R$ 6 milhões sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura.
Este volume de recursos drenados para empresas de fora da região, com estruturas recentes e vínculos cruzados, desenha um quadro de urgência para a população santarena. O que se vê é uma distribuição de milhões de reais em serviços de engenharia e materiais didáticos para um grupo restrito de pessoas, enquanto a clareza sobre a execução e a real necessidade desses gastos permanece obscura.
O Portal JK do Povão inicia, com esta reportagem, uma série que pretende desmascarar os bastidores das finanças municipais, cobrando que o Ministério Público e os conselheiros de contas cumpram seu papel de proteger o dinheiro do povo contra possíveis desvios e favorecimentos ilícitos.
A reportagem não conseguiu contato com as empresas citadas. O espaço segue aberto para os devidos esclarecimentos e serão acrescentados à matéria.
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