Duas empresas investigadas por suspeita de corrupção em uma licitação relacionada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), em Belém, já receberam, juntas, ao menos R$ 911 milhões do governo do Pará, conforme apuração da Procuradoria-Geral da República (PGR). As empresas J.A Construcons e JAC Engenharia pertencem a pessoas ligadas ao deputado federal Antônio Doido (MDB-PA) e estão no centro de um possível esquema de desvio de recursos públicos.
Antonio Doido é aliado político de Helder Barbalho, principal articulador da COP no Estado.
As investigações ganharam força após a prisão do policial militar Francisco Galhardo, em setembro de 2024, ao sacar R$ 5 milhões às vésperas das eleições municipais. O conteúdo encontrado no celular de Galhardo levou a PGR a levantar suspeitas sobre uma licitação da COP30, organizada pelo governo estadual, comandado por Helder Barbalho (MDB).

De acordo com a PGR, entre 2020 e 2024, o governo do Pará empenhou mais de R$ 1 bilhão em notas fiscais em favor da J.A Construcons, sendo R$ 911 milhões efetivamente pagos. A empresa também faz parte do consórcio Canal Benguí, ao lado da OCC Participações e Construções, que venceu, em agosto de 2023, uma licitação de R$ 123,3 milhões para obras de drenagem nos canais Benguí, Nova Marambaia e Rua das Rosas (Mangueirão), em Belém.
As investigações citam relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que apontam movimentações financeiras suspeitas nas contas da J.A Construcons, indicando possíveis fraudes em licitações e desvio de dinheiro público. O Coaf alerta para a existência de um consórcio de empresas usado para mascarar a origem e o destino final dos recursos públicos.
Embora a empresa tenha como sócia formal a esposa do deputado Antônio Doido, a PGR sustenta que ela atua como laranja, sendo ele o verdadeiro controlador das operações. Segundo a Procuradoria, a movimentação financeira da J.A Construcons cresceu a partir de março de 2020, justamente quando começaram os empenhos do governo estadual.
A PGR solicitou a abertura de investigação contra o deputado Antônio Doido, o PM Francisco Galhardo e o secretário de Obras Públicas do Pará, Benedito Ruy Cabral. As empresas J.A Construcons e JAC Engenharia, segundo a Procuradoria, fazem parte de um possível esquema de corrupção em contratos com o governo estadual.
Entre as evidências, estão mensagens encontradas no celular de Galhardo, que reforçam a suspeita de corrupção. Em 20 de setembro de 2024, no mesmo dia em que o consórcio formado pelas duas empresas venceu uma licitação de R$ 142 milhões para a obra da Perna Norte, em Belém, Galhardo sacou R$ 6 milhões em uma agência do Banco do Brasil, em Castanhal. Logo após o saque, ele trocou mensagens e tentou ligar para o secretário de Obras. Quatro dias depois, os dois se encontraram.
A PGR afirma que há indícios de que Antônio Doido, Galhardo e Ruy Cabral integram uma organização criminosa dedicada a cometer crimes contra a administração pública, com foco em fraudes licitatórias e corrupção. Também foram detectadas evidências de crimes eleitorais e infrações ao sistema financeiro nacional. As investigações seguem em andamento.

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