O afastamento do prefeito de Ananindeua, Dr. Daniel Santos (PSB), determinado nesta terça-feira (5) pela Justiça do Pará, reacendeu debates sobre possível uso político do Judiciário e do Ministério Público do Estado. A decisão, tomada de forma monocrática pelo desembargador Pedro Soterio com base em investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), é contestada por aliados do gestor e por setores da sociedade que enxergam no episódio um movimento de perseguição orquestrado pelo governo estadual.
Dr. Daniel é considerado, atualmente, o único nome da oposição com força suficiente para enfrentar nas urnas a vice-governadora Hana Ghassan (MDB), apontada como pré-candidata do governador Helder Barbalho para sucedê-lo nas eleições de 2026. O prefeito foi reeleito com expressivos 83,48% dos votos e aparece liderando as pesquisas recentes para o governo estadual, o que, segundo interlocutores próximos, teria motivado o cerco jurídico.
“É uma decisão arbitrária, tomada por um juiz ligado diretamente ao governo Helder. É mais um exemplo da ditadura dos Barbalho, que controla o Ministério Público e o Judiciário”, declarou Dr. Daniel, que foi surpreendido com a decisão enquanto estava em Brasília, onde mantém articulações políticas em sua pré-campanha ao governo. O prefeito também relatou que não teve acesso às acusações que embasaram seu afastamento e que sequer teve direito à defesa prévia.
Ainda de acordo com o gestor, o desembargador responsável pela decisão teria vínculos próximos com o Palácio dos Despachos. “A filha dele é a principal assessora do procurador-geral de Justiça do Estado. Isso mostra como as peças estão sendo movidas para tirar do jogo quem não faz parte do grupo deles”, denunciou.
A Comunicação Estratégica da Prefeitura de Ananindeua emitiu nota oficial classificando o afastamento como parte de uma “pública e notória perseguição política”. A nota afirma que os “oligarcas da família Barbalho” estariam se utilizando de sua influência para manipular investigações e criar uma “falsa narrativa” com fins eleitorais.
“Não há nada a temer. Sou pré-candidato ao governo do Estado e vamos lutar até o fim para libertar o Pará de uma ditadura que engana o povo e persegue quem não se ajoelha aos seus desmandos”, diz o comunicado, assinado pela assessoria da Prefeitura.
A repercussão do caso vai além do município de Ananindeua. Parlamentares e lideranças políticas apontam que há uma clara seletividade nas ações do GAECO, que tem atuado de forma incisiva apenas contra adversários do governo estadual. Enquanto Dr. Daniel é alvo de operações e afastamentos, graves denúncias envolvendo aliados do governador seguem sem qualquer apuração.
Um dos casos citados é a suspeita de fraudes em contratos ligados à COP30 envolvendo empresas do deputado estadual Antonio Doido, figura próxima ao governador Helder Barbalho. Mesmo diante das evidências e das denúncias públicas, nenhuma ação foi tomada pelas autoridades do Estado.
“Não somos contra investigações. Quem deve, tem que pagar. Mas é no mínimo estranho que toda semana se fale de operação contra Daniel, e nenhuma contra o governo ou seus aliados, mesmo com denúncias gravíssimas. Isso precisa ser dito”, afirmou um vereador da base do prefeito.
O prefeito afastado afirma que já está com sua defesa pronta e recorrerá à decisão no Tribunal de Justiça. Ele também busca apoio político do PSB nacional, tendo acionado o presidente da sigla, Carlos Siqueira, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para garantir respaldo à sua candidatura e barrar o que chama de “intervenção eleitoreira do governo estadual”.
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